Chega de Saudade

Desde quando foi inaugurado, há 33 anos, o cineminha instalado à beira-mar de Pajuçara vem influenciando gerações ao oferecer uma programação sempre em sintonia com o melhor da produção autoral; Com parceria do poder público e alguns apoiadores, os sócios Felipe Guimarães, Werner Salles, Milton Pradines e Marcos Sampaio assumiram o desafio de criar um novo empreendimento

Elo entre a arte cinematográfica e o público, a sala escura possui sua mágica particular. De tão fascinante, ela própria já inspirou obras-primas como Cinema Paradiso (1988), longa do italiano Giuseppe Tornatore que narra a saga do pequeno Toto. Seduzido pelos clássicos em exibição na sala de uma cidade provinciana, ele passa a fugir da missa para espreitar as matinês do cinema.

Vinte e cinco anos após seu lançamento, o filme continua a tocar tantas pessoas que, até hoje, os cinéfilos o evocam na busca por traduzir suas histórias passionais com a Sétima Arte. Se todo amante do cinema tem um ‘paradiso’ para chamar de seu, para os alagoanos (e especialmente os maceioenses) ele tem trocado de nome com o passar dos anos.

Entre mudanças de administradores e hiatos de décadas a portas fechadas, a sala já conhecida como Cine Pajuçara e Cine Art Pajuçara foi batizada de Cine Sesi Pajuçara em sua mais recente fase, que teve fim em 25 de junho último, quando o Serviço Social da Indústria (Sesi) decidiu por encerrar suas atividades, alegando falta de recursos.

Em Cinema Paradiso, o desfecho é melancólico: a prefeitura da cidade decide demolir a sala de exibição para construir um estacionamento. Mas, pelo menos desta vez, a vida não imitou a arte: o Cine Sesi, agora rebatizado como Centro Cultural Arte Pajuçara, já tem data para retornar à ativa. E sua continuidade se deve justamente ao esforço de admiradores do espaço, que, cada um a seu modo, possuem uma história de envolvimento com ele.

Desde o fechamento até o próximo dia 07 de novembro, data anunciada para a reabertura, terão se passado 135 dias. É tempo suficiente para rodar um longa-metragem ou para assistir a 270 filmes no ritmo de um espectador muito assíduo. Porém, durante esse período, eles não tiveram tempo sobrando para pegar um cineminha. Pelo contrário. Foi preciso muito esforço e articulação para viabilizar a volta.

Todos sabem: trata-se de uma iniciativa que exige certa dose de coragem, já que nos últimos sete anos o espaço funcionou com subsídio do Sesi, sem depender do faturamento para bancar suas despesas. O novo modelo do negócio é uma sociedade, espécie de força-tarefa encabeçada por Marcos Sampaio, ex-gerente do Cine Sesi e do antigo Art Pajuçara, e formada pelo documentarista e publicitário Werner Salles, o administrador Felipe Guimarães e o jornalista Milton Pradines.

Na adolescência, Werner, 41, era frequentador assíduo do espaço e, assim como o protagonista de Cinema Paradiso, chegava a matar aula para pegar as sessões do Art Pajuçara. Hoje, deve parte de sua formação como realizador à existência do lugar. “Foi uma janela importante para mim. Foi onde vi pela primeira vez clássicos como The Wall, Em Busca do Desejo e Delicatessen, na tela do cinema”, ele rememora.

Para Werner, ainda que indiretamente, o público também terá um papel importante na manutenção do novo centro. “A mobilização do público a partir do fechamento foi o grande motivador desse empreendimento. Acreditamos que ele será viável a partir dessa demanda reprimida. O papel do público será importantíssimo para dar sustentabilidade ao espaço e provar que cultura também é um negócio. E um espaço como o Centro Cultural Arte Pajuçara irá movimentar uma cadeia produtiva de artistas que precisam de espaço para exibir seus filmes, peças de teatro, exposições etc”, diz o diretor dos documentários Imagem Peninsular de Lêdo Ivo e Exu – Além do Bem e do Mal, que cuidará da comunicação do espaço.

DESAFIO

Apesar de pertencer a uma geração diferente, Felipe, 28, também possui uma memória afetiva relacionada ao antigo Art Pajuçara. Quando criança, ele era levado pelos avós para as sessões de cinema e ainda lembra do cheiro de pipoca nos corredores da galeria. Ex-integrante da Cia. de Teatro Infinito Enquanto Truque, Felipe também tem envolvimento com a cultura de longa data, e se sensibilizou com o fechamento do Cine Sesi a ponto de se oferecer para dar sua contribuição. Agora responsável pela gestão do Centro Cultural Arte Pajuçara, ele se vê diante de um desafio.

“O grande objetivo da gestão é tornar aquele espaço sustentável, mas isso não implica em torná-lo um cinema comercial. Esse não é nosso foco, até porque se fizéssemos isso estaríamos competindo com empresas muito maiores. Então o grande desafio é garantir os níveis de faturamento e despesas equilibrados, para que, junto com os apoiadores que a gente tem, ele se sustente por si só”, diz Felipe.

As entidades parceiras são a Fundação Municipal de Ação Cultural (FMAC) e a Secretaria de Estado da Cultural (Secult), que entram com patrocínio financeiro para bancar parte das despesas do espaço. Já o Sesi colabora cedendo os equipamentos e a estrutura que já existiam. Segundo Felipe, na equação necessária para viabilizar o centro cultural, além de reduzir a equipe e cortar várias despesas fixas, vai pesar também a exploração do estabelecimento como um todo.

“Buscaremos não depender exclusivamente do cinema, o que inclusive reforça o posicionamento do espaço, que visa promover a ambiência cultural como um todo, sem depender tanto dos filmes, até mesmo porque faturamento do cinema é dividido com a distribuidora”, ele informa.

No pacote de mudanças estão uma nova bombonière, abastecida com cardápio gourmet, adega e cafeteria, e uma galeria de artes que, além de expor, vai também vender obras de artistas contemporâneos. “Nossa intenção é transformar o centro cultural num lugar de encontro, um lugar agradável onde as pessoas possam vir tomar um capuccino e marcar reuniões para discutir seus projetos. Também teremos livros alagoanos à venda, entre outras coisas. Não será apenas um lugar que existe em função dos filmes; queremos que seja um espaço para promover uma experiência cultural”, diz Marcos Sampaio, que continuará responsável pela coordenação da programação.

Revitalizar o teatro também está entre as cartas na manga. “Apesar de não ter uma estrutura adequada para um teatro (sem coxia, com uma caixa cênica pequena), aquele é uma espaço com localização privilegiada para eventos, palestras e atividades de formação. Ele pode ser trabalhado de várias formas, inclusive como um teatro, mas com espetáculos que se adequem a ele. Já estamos pensando em cursos para realizar lá. Faremos do espaço uma usina de formação, comunicação e conhecimento”, explica Milton Pradines, que responde pelas relações institucionais do grupo.

A essa altura, o leitor já deve ter se perguntado como ficam eventos cativos como o Corujão, o Chá de Cinema e as mostras temáticas que movimentaram o espaço todos esses anos. Para marcar a reabertura, o Centro Cultural Arte Pajuçara preparou uma programação extensa e repleta de atrações de vários segmentos artísticos.

A Gazeta teve acesso à programação com exclusividade. Nesta edição, a gente antecipa o que você verá em cartaz nos próximos meses. Confira.

Repórter: Rafhael Barbosa
Foto: Felipe Brasil

Fonte: http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=233149