06marOnde é o fundo do poço?

Fundo do Poço

 

Infelizmente, não há como fugir do assunto, por mais cansados que estejam os leitores de ouvir os economistas falando sobre a crise econômica que não foram capazes de antecipar. O tema não caduca não apenas porque a crise é uma das mais severas da história, mas principalmente porque a cada dia que passa, precisamos atualizar nossa definição da palavra “severa”.

No Brasil, os dados de produção industrial referentes ao mês de dezembro são alarmantes, para dizer o mínimo. Ajustando para a sazonalidade, a indústria brasileira declinou mais de 12% em dezembro, comparativamente a novembro. No total, no último trimestre do ano passado, a indústria afundou quase 10%, levando a um crescimento em 2008 de meros 3%. E o primeiro trimestre deste ano promete mais números feios.

É verdade que os últimos dados da indústria de certo modo foram inflados pelo derretimento da indústria automobilística e o consequente ajuste negativo de estoques. Porém, o índice de difusão, que mede o número de setores com crescimento negativo, não deixa margem para dúvidas.

A recessão está espalhada por grande número de setores da economia, e não concentrada apenas nos setores mais dependentes de crédito para funcionar. No gráfico abaixo, note o leitor que já chegamos em dezembro a um nível similar ao das crises Collor (1991), Arrocho de Crédito (1995), Apagão (2001) e Política (2002). E isso sem que tenhamos alcançado o fundo do poço.

Diante deste quadro, é bem provável que o Banco Central continue a reduzir os juros com contundência, nas próximas reuniões do Copom. Mas, em que pese isso e a fé professada por Lula na recuperação da economia doméstica, a verdade é que a produção só se recuperará quando a economia mundial voltar a respirar com mais normalidade.

Quando isso vai acontecer? Não há como dizer com precisão, mas a experiência pregressa sugere que ainda vai demorar bastante.

Com efeito, em artigo recente, os economistas Kenneth Rogoff e Carmem Reinhart investigaram minuciosamente o caminho das variáveis econômicas após a ocorrência de grandes crises financeiras, tanto recentes (como Argentina e Ásia), como antigas (como a de 1929). As conclusões não são nada alvissareiras.

Na sua amostra, em média, as bolsas dos países atingidos caem cerca de 55% em um período de 3,5 anos; o desemprego eleva-se em sete pontos percentuais ? e tarda 4 anos para regressar ao seu nível pré-crise; o PIB declina um total de 9%; e a dívida pública eleva-se fortemente devido à maciça queda de receita que advém da contração da economia.

A coisa é realmente feia. Ao invés de marolinha, temos uma verdadeira tormenta. Concluo este texto com um pingo de esperança. Se os EUA conseguirem rapidamente implementar o plano de recuperação do mercado financeiro, separando os ativos ruins dos bons no bojo de um grande Bad Bank, destravando assim o mercado financeiro, a recuperação econômica poderá vir mais cedo.

Afinal de contas, estatísticas fornecem médias sobre o passado, mas se as ações de política econômica presentes forem melhores que as passadas, elas deixarão de fornecer um bom guia para o que vem adiante.
Por Carlos Eduardo Gonçalves (professor do Departamento de Economia da FEA-USP e Economista do Grupo de Conjuntura da FIPE; e-mail: cesg@usp.br)
HSM Online
02/03/2009